Formação: Uma Quaresma para Deus nos ver!

Quaresma para um coração novo, um coração de carne, um coração que ama.

Uma transformação do coração pela escuta da Palavra. Ouçamos a voz do Papa para iniciar este tempo de graça:

“Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição. ” Papa Leão XIV – Mensagem para a Quaresma 2026.

Bento XVI disse que: «Devido à riqueza dos símbolos e dos textos bíblicos a Quarta-Feira de Cinzas é considerada a ‘porta’ da Quaresma». Nesta porta de entrada o que encontramos?

No Evangelho da celebração da quarta-feira de cinzas, em poucos versículos, um verbo se repete quase o tempo todo. Esta palavra nós gostaríamos de colocar no centro da nossa homilia e como uma indicação para a toda a nossa Quaresma. Os verbos eles se repetem no Evangelho de Mateus intencionalmente. Que verbo é esse que mais se repetiu? Trata-se do verbo VER.  “Para serdes vistos, o teu Pai que vê”.

Assim, eu diria que a conversão que o tempo quaresmal espera de nós, é um movimento que me leva a viver debaixo das vistas, dos olhos de Deus. De fato, se nós tivéssemos a PRESENÇA de Deus nos acompanhando com o seu olhar em todos os momentos da nossa vida, nós nos esforçaríamos mais por lhe agradar. É importante dizer neste contexto, que não se trata de pensar no olhar de Deus como alguém que está nos vigiando para nos surpreender com alguma falta e logo nos castigar. Não é esse olhar de Deus.

O seu olhar é como está descrito na primeira leitura: ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar. Chamo a atenção para a palavra compassivo. «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para conosco. Assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. É assim o olhar de Deus.

Então, o primeiro exercício espiritual que proponho para nós nesta Quaresma é que vivamos este tempo debaixo dos olhos de Deus. Façamos tudo como se estivéssemos fazendo para Deus ver: o seu trabalho cotidiano, a sua convivência familiar com seu cônjuge e filhos, a sua missão e apostolado, o seu convívio social. Façamos a experiência de iniciar o nosso dia e chamar Jesus para viver conosco, e quando estivermos fazendo algo que nós nos propusemos mudar, e logo notar que Jesus está contigo, faça o que lhe agradaria. Trata-se de um esforço para praticar o que é bom aos olhos de Deus, ao contrário de Davi, que praticou o mau aos olhos de Deus, como rezamos no salmo de hoje.

Não façamos as coisas para sermos vistos pelos homens, façamos as coisas para sermos vistos por Deus! Não faça o seu jejum, a sua oração e a sua caridade para outros olhos ver. Façamos para Deus ver.

Trata-se de um chamado ao recolhimento. Se queremos viver sob o olhar de Deus, precisamos aprender a sair do olhar dos outros. Isso confronta o estilo de vida que a sociedade do nosso tempo adotou como um imperativo. Com a era das redes sociais, somos instigados a dar publicidade, a publicar, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, com isso a fé entre alguns tem se tornado apenas um objeto de publicidade. Quaresma é tempo de recolhimento, de mais silêncio, de preocupar-se não com o que vou publicar, mas preocupar-se com o que Deus vê.

Exercício espiritual 01: Viver sob o olhar de Deus

  • Viverei minhas práticas quaresmais em segredo, buscando agradar a Deus e não aos homens.
  • Definirei propósitos concretos de oração, penitência e caridade.
  • Reservarei momentos de silêncio e recolhimento durante a semana.

Responda: O que farei nesta Quaresma que somente Deus verá?

Continuando a homilia …. E como a Igreja nos ensina a fazer esse movimento de sair do olhar dos homens e voltar ao olhar de Deus? Com um caminho muito concreto: a penitência.

Hoje, ao recebermos as cinzas, escutaremos: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. As cinzas nos recordam a fragilidade da vida. Recordam que tudo passa, que não somos eternos aqui. Mas também recordam algo mais profundo: que, mesmo sendo pó, somos amados por Deus e chamados à conversão. Receber as cinzas é dizer: “Senhor, quero voltar para debaixo do teu olhar.”

Quero lhes apontar dois fins da penitência segundo a liturgia de hoje.

Primeiro a antífona de entrada da missa de hoje nos dá uma indicação preciosa. “Ó Deus, vos tendes compaixão de todos e não rejeitais nada que criastes; ‘fechais os olhos’ aos seus pecados por causa da penitência e os perdoais, porque sois o nosso Deus”.

A penitência faz com que Deus “feche os olhos”, entre aspas, aos nossos pecados! Meditemos sobre isso. Se por um lado, Deus se agrada em ver nossas boas obras, nosso esforço, nosso desejo de recolhimento, por outro ele nos dá uma graça ainda maior: ele vê as obras, e fecha os olhos aos pecados. Queremos que Deus não nos olhe mais como pecadores condenados, mas como filhos que voltam. É isso que a penitência realiza.

Vejam: não é que ele fará vistas grossas. Não! Absolutamente que não! Ele não nos verá mais como sendo culpados! Ele verá somente o nosso desejo em sermos santos, em deixar de lado a avareza, a gula, a soberba, a luxúria, a inveja! Se ele nos ver lutando pela penitência, ele fechará os olhos aos pecados e nos verá como filhos amados.

É uma imagem muito humana: Deus vê o pecado, mas escolhe olhar a pessoa com misericórdia quando ela se volta para Ele. A penitência, então, não é um pagamento. É um gesto de retorno que abre espaço para o perdão já desejado por Deus.

Exercício Espiritual 02: Voltar ao Senhor com o coração

As cinzas que recebemos recordam nossa fragilidade e o chamado à conversão. “Lembre-se das cinzas que recebeu: somos frágeis e dependentes da misericórdia.”

  • Farei um exame de consciência sincero.
  • Marcarei o dia da minha confissão.
  • Apresentarei a Deus os pecados dos quais desejo me afastar nesta Quaresma.

Responda: Quando irei me confessar?

Mas a penitência não é apenas um gesto devocional. Ela é também arma de combate. Ela tem outro fim. Disse a oração da coleta: Auxiliados pela penitência, sejamos fortalecidos no combate contra o espírito do mal.

Todos os dias, mas sobretudo na Quaresma, o cristão deve enfrentar uma luta, como a que Cristo empreendeu no deserto da Judeia, onde durante quarenta dias foi tentado pelo diabo, e depois no Getsémani, quando rejeitou a extrema tentação aceitando totalmente a vontade do Pai. Trata-se de uma batalha espiritual, que se destina contra o pecado e, por fim, contra satanás. É uma luta que envolve totalmente a pessoa e exige uma vigilância atenta e constante. (…) BENTO XVI. A penitência é uma arma de combate. Lutemos contra o espírito do mau!

Com oração, jejum e caridade, lutamos para permanecer sob o olhar de Deus.

Exercício Espiritual 03: Combate espiritual

A Quaresma é tempo de luta contra o pecado e de crescimento na graça.

  • Reconheço que minha vida espiritual exige vigilância.
  • Pedirei a Deus força para resistir às tentações concretas do meu dia a dia.
  • Usarei a oração, o jejum e a caridade como armas espirituais.

Responda: Qual é a principal luta espiritual que preciso enfrentar nesta Quaresma?


Autor: Pe. Tiago Borges – CCP