Como se lançar concretamente na oração quando se acaba de descobrir a fé? Em Primeiros passos na oração (Premiers pas dans la prière), o cardeal Lustiger dá pontos de referência simples para aprender a viver aos poucos na presença de Deus.
1- Todos os dias e em um lugar secreto
O primeiro conselho dado pelo cardeal Jean-Marie Lustiger (1926-2007) em sua obra Primeiros passos na oração é rezar todos os dias. O ser humano é um ser de ritmos e rituais: suas atividades se inserem no cotidiano e orientam, de certa forma, a sua vida.
Outro conselho essencial do cardeal: retirar-se, ao menos por um movimento interior, a um “lugar secreto”, onde possamos falar com Deus, nosso Pai, sem máscaras, ao abrigo do julgamento alheio. Se as nossas condições de vida nem sempre nos permitem isolar-nos para rezar em silêncio, podemos ao menos convidar Cristo para o nosso pequeno “quarto interior” e viver com Ele um momento de coração a coração.
2- União e ação de graças, de manhã e à noite
Os Evangelhos nos ensinam que não podemos fazer nada sozinhos (João 15, 5). Por outro lado, tudo se torna possível para quem se entrega a Deus e permanece unido a Ele naquilo que faz (Lucas 1, 37).
O cardeal Lustiger convida, assim, o neófito a rezar em união com Cristo. Pela manhã, podemos reservar um momento para receber nossa existência como um presente renovado de Deus e render-Lhe graças por este novo dia, que nos é dado como uma nova oportunidade de amar. Podemos pedir à Santíssima Trindade o seu auxílio e a sua presença ao longo de todo o dia.
Ao cair da tarde, entregamos nosso espírito ao Pai, associando-nos ao abandono de Cristo nas mãos de Deus (Lucas 23, 46).
A cada manhã e a cada noite, o neófito é chamado a fazer a experiência da ação de graças, da oferenda e do abandono. Aos poucos, esses dois encontros com Deus dão ao seu dia uma nova orientação: ele começa a descobrir a alegria de uma oração e de uma vida voltadas para o Senhor.
3- A oração mais simples e mais profunda
Todo catecúmeno ou criança batizada aprende este primeiro gesto fundador: o sinal da cruz. No entanto, muitas vezes não percebe com clareza a força e a profundidade desse gesto que é, em si mesmo, uma oração.
O cardeal Lustiger nos convida a tomar consciência de tudo o que esse gesto, repetido tantas vezes, significa e a meditá-lo. Pelo sinal da cruz, recordamos o sacrifício de Cristo para a nossa salvação. Podemos também nos lembrar de que pertencemos ao povo cristão ou ainda fazer memória do nosso batismo, quando recebemos pela primeira vez a assinalação batismal.
Com o sinal da cruz, dizemos: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém”. Ao marcar o início de cada um dos nossos dias, ao acordar, lembramos de nossa vocação profunda: viver sob o olhar da Santíssima Trindade, dar-Lhe glória, deixar-nos guiar e moldar por Ela no dia a dia.
Por esse sinal, colocamo-nos também sob a cruz de Cristo e consentimos em renunciar aos poucos à nossa própria vontade para deixar reinar em nós a vontade de Deus. “Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim”, escreve São Paulo após ter feito a experiência de uma vida inteiramente dada ao Senhor (Gl 2, 20).
Assim, um gesto que pode parecer mecânico torna-se, aos poucos, uma verdadeira oração: em poucos segundos, o cristão recorda quem é o seu Deus, a quem ele pertence e para qual vida é chamado.
4- Nutrir a imaginação e a sensibilidade
Uma vez aprendido e interiorizado o sinal da cruz, o neófito pode, no entanto, sentir-se desamparado na hora de rezar: como falar com o Deus que ele está apenas começando a conhecer?
O cardeal Lustiger aconselha “preencher a imaginação, nutrir a sensibilidade” para encontrar as palavras e dar corpo à sua oração. Para isso, a leitura dos textos ouvidos no domingo na missa e a sua meditação ao longo da semana podem constituir um primeiro passo. O cardeal, de origem judaica, era particularmente apegado à leitura e — na medida das nossas capacidades — até mesmo à memorização dos salmos ou de pelo menos alguns versículos.
Da mesma forma, a Palavra depositada em nosso coração pode continuar a dar frutos, mesmo quando não estamos mais conscientes disso. Não controlamos tudo o que acontece no segredo de nossa alma: cabe-nos acolher, meditar e deixar que Deus faça crescer em nós aquilo que ali semeou.
5- Ritmar o seu dia
O neófito que fez a experiência da oração matinal e noturna é chamado a ir um pouco mais longe: ritmar o seu dia com numerosos olhares de amor para Deus, com esses “impulsos do coração” dos quais falava Santa Teresinha do Menino Jesus.
Jesus convida seus discípulos a “rezar sempre, sem jamais desanimar” (Lc 18, 1), e São Paulo se junta a essa exortação: “Orai sem cessar” (1 Ts 5, 17).
Basta, ao longo do dia, reservar um breve momento para se voltar para o Senhor: no início de um trajeto, no momento de uma refeição para abençoá-la e dar graças, ao meio-dia na pausa para o almoço, ou ainda na hora da misericórdia (15h), para fazer memória do sacrifício de Cristo. À noite, durante o exame de consciência, podemos “retomar, sob o olhar de Deus, o dia que acabou de se passar e ver em que fomos fiéis ou não ao seu amor”.
Essas curtas orações tornam-se, aos poucos, pontos de referência no nosso dia e ocasiões para renovar nossa confiança em Deus. Elas nos ajudam a permanecer voltados para Ele no meio de nossas ocupações, sem que a oração fique separada do restante de nossa existência. O benefício vai muito além dos nossos pequenos esforços: é “o gosto da felicidade”, nas palavras do cardeal Lustiger, que nos é dado gratuitamente por Deus.
No fim das contas, o que nos transmite o cardeal Lustiger, sejamos neófitos ou cristãos mais avançados na fé, vai muito além de um simples método para aprender a rezar. Trata-se de aprender a viver com Deus, de perseverar nessa união; assim, ao longo do dia, toda a nossa existência acaba gradualmente por se tornar ela própria uma oração.


