O Evangelho de hoje (Mt 4,12-23) dá continuidade e fortalece os ensinamentos da catequese vocacional que temos recebido na liturgia ao longo deste mês. Sendo Jesus, o Filho e o Cordeiro Deus (conforme apresentado no domingo anterior), toda a humanidade deve se apresentar disponível para responder ao seu chamado e acompanhá-lo livremente aonde quer que Ele vá. Conforme anunciado por Isaías (primeira leitura), depois de atravessar o Jordão no Batismo, Jesus se dirige à Galileia. É lá, na chamada “Galileia dos pagãos” que a luz do Evangelho se espalhará como luz em direção a todos os povos da humanidade através da resposta corajosa e decisiva de quatro pescadores.
No relato deste encontro transformador, Mateus nos apresenta três pontos fundamentais para permanecer no discipulado e seguimento do Messias:
1) Ouvir atenta e minuciosamente a mensagem contida nas palavras e atitudes de Jesus: Ao ir morar em Cafarnaum, Jesus Cristo revela que sua Boa Notícia será proclamada tanto aos judeus quanto aos pagãos. Como a Galileia abria-se para o mar, ela era tida como a porta de entrada para o contato com o comércio e cultura dos muitos povos que rodeavam Israel. O mar da Galileia era tido como um local de fertilidade e abundância de alimento, assim o convite vocacional sugere uma vida renovada e transformada pelo seguimento a Jesus. Para que vivendo o Evangelho se tornem um só povo: o Povo de Deus. Mas para que esta vida nova aconteça se faz necessária acolher sua mensagem: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
2) Abertura para a Conversão/Metanoia que aponta para a necessidade de mudança de vida em todas as dimensões: Mas porque se faz necessário mudar? Quais são as mudanças necessárias? Mesmo vindo de outras culturas o Código de Hamurabi e a Lei de Talião acabaram sendo incorporadas a Torá e vividas cotidianamente pelos judeus. Vemos isto não apenas na escrita dos mandamentos, mas em exemplos concretos como quando João e Tiago, diante da falta de acolhida e desrespeito por parte dos samaritanos, desejaram mandar descer fogo do céu em atitude de retaliação ou vingança (Lc 9,51-55). Assim, muitas vezes a Lei contribuía para a continuidade de uma espiral de violência que aprisionava a humanidade nesta vivência que confundia vingança com justiça. O verdadeiro seguimento e discipulado não se resume a se encantar com as belas palavras de Jesus, mas em tornar o centro de sua vida aquilo que era também a motivação vital de Jesus Cristo. Sendo assim, os princípios que devem mover nosso discipulado são os mesmos que moviam a ação evangelizadora de Jesus: a misericórdia, a empatia, acolhida e a compaixão. É preciso deixar para traz as atitudes do homem velho para se tornar verdadeiramente o homem novo. Pois, o convite a conversão é uma exigência que provoca uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura vital que indica a reorientação a vida para Deus, fazendo com que Ele e os valores do seu Reino passem a estar no centro da existência do homem.
3) Concreto e Verdadeiro seguimento de Jesus: a comunidade de Jesus inicia-se já com um diferencial. Não são os discípulos que o escolhem como era costume acontecer com os rabinos na época. É Jesus que os aborda em meio a normalidade da vida cotidiana e lhes propõe uma audaciosa missão que causará consequências em seus lugares na família e na sociedade. A resposta daqueles que foram chamados é igualmente radical como também foi o convite. Renunciam a tudo: aos projetos pessoais, à família, ao status social, ao seu trabalho, às seguranças, comodidades e etc. Esta renúncia integral nem sempre será fácil de ser vivida de modo permanente (Cf:Mc 10,28-31 / Mt 19,27-30), por isto que a Conversão ou Metanoia deverá ser um desejo permanente no coração de todo aquele que respondeu ao chamado e tornou-se discípulo.
Em suma: As vocações apresentadas neste relato revelam os traços, condições e requisitos essenciais da vida e da caminhada de qualquer discípulo missionário em qualquer era ou época. Necessitamos permanecer na consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino. Ele apresenta o plano de salvação e nós buscamos vivê-lo. Não cabe a nós querer acrescentar coisas que supomos serem mais importantes ou decidir ignorar o que deve ser vivido, como se o Evangelho fosse o cardápio de um restaurante onde somente escolhemos aquilo que é agradável ao nosso paladar. Se faz necessária também que a renúncia seja acompanhada de abnegação e coragem para fazer com que o Reino tenha sempre a primazia em nossas vidas.
O Reino é de Deus! Dele! Não é posse nossa. E somente conseguiremos aderir a esta realidade e contribuir para que ela se torna vida e verdade já aqui neste mundo, se deixarmos que Jesus Cristo seja aquilo que de fato é: nosso Deus Salvador. Luz da salvação para toda a humanidade.



