Celebramos hoje, com grande alegria, a Festa de São Matias, o Apóstolo escolhido por Deus para substituir Judas.
Diferentemente dos outros Apóstolos, São Matias não foi chamado por Jesus durante a vida pública, mas foi eleito posteriormente para ocupar o lugar deixado vazio pela traição de Judas. Por isso, o Evangelho de hoje é justamente um Evangelho que São Matias não ouviu pessoalmente no Cenáculo, mas que depois foi chamado a viver profundamente.
Na Última Ceia, naquele momento de intimidade em que estavam apenas Jesus e os Doze Apóstolos — sem ninguém mais, nem mesmo Nossa Senhora —, Nosso Senhor olha para eles e diz: “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 15-16), revelando dessa forma algumas das características mais profundas da verdadeira amizade.
Santo Tomás de Aquino, ao refletir sobre a amizade, explica que toda amizade verdadeira começa por uma eleição e uma escolha racional. Não é simplesmente uma questão de afinidade passageira ou emoção superficial, em que basta dizer: “Eu gosto dessa pessoa”. Antes de fazer de alguém um amigo, é preciso perceber se essa pessoa possui virtudes, se ela nos conduz ao bem e se nos ajuda a crescermos espiritualmente. É exatamente isso que os pais fazem conosco quando somos pequenos: procuram afastar as más companhias e aproximar-nos de pessoas que possam nos conduzir ao caminho correto.
A amizade verdadeira nasce dessa escolha consciente do bem. E, uma vez feita essa escolha, o coração começa a se abrir. Compartilham-se os amores, os valores, os desejos mais profundos e, então, acontece aquilo que São Tomás chama de concórdia: os corações passam a habitar o mesmo lugar, amando as mesmas coisas. É por isso que os amigos verdadeiros permanecem unidos mesmo quando estão distantes fisicamente: pois amam aquilo que nós amamos.
Muitas vezes, encontramos pessoas que nunca vimos, mas que nos acolhem como verdadeiros amigos, porque amam as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas que nós. Existe, pois, essa permanência do amigo na alma do outro amigo. Trata-se de um fenômeno humano belíssimo, mas que Jesus, no Evangelho de hoje, quer elevar a um nível sobrenatural.
Aquilo que Nosso Senhor viveu com os Apóstolos na Última Ceia, naquela intimidade única da vocação apostólica, Ele deseja viver também conosco, cada um conforme a sua vocação. Se somos discípulos de Cristo, precisamos aprender a estar com Ele na intimidade, reclinando a nossa cabeça sobre o seu peito, como fez São João, para que exista cada vez mais concórdia entre o nosso coração miserável e o seu sacratíssimo Coração.
Portanto, escolhamos Jesus como nosso verdadeiro amigo, e digamos a Ele: “Jesus, escolhi tantas coisas erradas na vida! Contudo, hoje quero escolher a Vós como meu mais profundo, perfeito e grande amigo, porque sei que Vós me escolhestes primeiro”.
Desse modo, surge em nossa alma uma união sobrenatural, na qual Ele permanece em nós e nós permanecemos n’Ele. E, permanecendo em Cristo, jamais estaremos sozinhos; antes, daremos frutos de vida eterna, porque estaremos unidos Àquele que é a própria Vida.



