Depois de receber a rígida formação dos fariseus, de apostar todas as fichas no estrito cumprimento da lei e de perseguir os cristãos por causa da pouca importância que davam às imposições e interdições da lei judaica, Paulo faz uma profunda e inusitada experiência de encontro com Jesus Cristo no caminho para Damasco. E, a partir disso, descobre-se cego e limitado, necessitado de ajuda e profundamente acolhido por Jesus Cristo.
Esse encontro com Jesus e seu Evangelho faz ruir diante dos olhos de Paulo o inteiro edifício teológico e moral que abrigava a sua fé: ele joga no lixo como desprezível tudo aquilo que antes lhe parecia precioso, que considerava privilégio e mérito adquirido pela origem judaica e pela prática rigorosa da lei. Ele descobre que a salvação não é prêmio para os cumpridores da lei, mas graça que nos vem de Deus em Jesus Cristo.
A convicção de que somos salvos pela Graça de Deus faz parte do núcleo dinâmico da fé cristã, tanto na versão católica como protestante. E isso significa, em primeiro lugar, que ninguém chega à plena realização humana quando se enclausurando-se em seu individualismo, fechando-se numa dourada indiferença frente às necessidades alheias, confiando complacentemente no poder do dinheiro, do saber e das normas morais.
Crer que somos salvos pela Graça significa, portanto, abandonar toda e qualquer forma de meritocracia, esta ideologia que ensina que a vida agracia os bons, que Deus abençoa os empreendedores, que o saber pode ser comprado e usado em favor da própria prosperidade, sem reconhecer sua origem e sua finalidade social e universal. Mas não há como pintar Jesus como alguém distribuindo globos de ouro aos ‘melhores’…
Hoje, a lei que Paulo relativiza e contra a qual se rebela recebe outros nomes, entre os quais estão estes: ‘Quem pode mais, chora menos’; ‘o importante é levar vantagem em tudo’; ‘cada um para si e deus para todos’; ‘lei da oferta e da procura’; ‘o mercado e a concorrência são os únicos garantidores da justiça e do bem-estar’; ‘os direitos humanos são para os humanos direitos’; ‘faça o bem a quem é do bem’…
Afirmar que somos salvos pela Graça de Deus significa também reconhecer que todos – homens e mulheres, brancos e negros, ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, católicos e protestantes, crentes e não crentes – somos pecadores acolhidos por Jesus Cristo e reconciliados com Deus. A Graça de Deus nos torna iguais, membros do mesmo corpo, herdeiros das mesmas Promessas. E nisso se realiza plenamente a humanidade que pulsa em nós e a santificação operada pacientemente pelo Espírito Santo no ventre da história.