SERIA A QUARESMA UMA IMPOSIÇÃO DA IGREJA PARA SEUS FIÉIS?

É chegado o tempo da Quaresma, que para nós Cristãos é especial pela reflexão e vivência do jejum, da penitência, da oração e da esmola (MT 6,1-9). É importante se ter claro que Jejum, penitência, oração e esmola, são aspectos de todos os tempos da vida Cristã e não apenas da Quaresma. Contudo a Quaresma nos leva a olhar de uma maneira diferente para esses elementos, em vistas de preparar-nos para a Páscoa, ou seja, sem uma boa vivência da Quaresma nossa Páscoa é superficial.

A Quaresma não é uma invenção da Igreja, mas é proposta pela mesma, antes de tudo, porque Jesus a viveu MT 4,1-11, em outras palavras, o primeiro referencial da Quaresma é o próprio Cristo, quer dizer que, buscar vivê-la é se configurar a Cristo, é trilhar um caminho que antes foi trilhado por nosso Mestre e Senhor, portanto na Quaresma, dentre outras coisas, Jesus revela armas para combatermos a concupiscência e o demônio, assim vivenciarmos o nosso Batismo.

JEJUM E PENITÊNCIA É A MESMA COISA?

Jejum e Penitência são coisas diferentes. Enquanto o Jejum consiste em se tirar refeição, podendo ser isso de forma total (quando não se faz nem uma refeição durante o dia), pode também ser de forma atenuada (fazendo-se apenas uma refeição completa, isto é, come-se naquela refeição o que comeríamos em outros dias (nem mais, nem menos) e dois leves lanches, um no café da manhã e outro no café da noite, de maneira que esses dois últimos juntos não deem um completo, além disso, deve-se tomar líquido caso necessário). Estas, portanto, seriam as formas mais tradicionais de jejum, contudo há outras, por exemplo, o jejum a pão e água.

a penitência consiste em se abster de algo, que não necessariamente é alimento e não implica necessariamente em tirar refeições completas, por exemplo, me propor em não jogar vídeo game ou em não comer chocolate. A penitência deve ser de algo que se goste e se tenha acesso. Tanto a penitência, quanto o jejum, deve nos interpelar ao autodomínio, a mortificação. Toda via isso também pode se dar no sentido inverso,ou seja,vez de evitar comer algo que se goste, se propor a comer algo que não se goste, por exemplo, não gostar de alface, mas por penitência “se deliciar” com a mesma.

 ISSO NÃO SERIAM PRÁTICAS SOMENTE DA IGREJA DE OUTROURA?

Tanto o jejum como a penitência, se feitos no espírito Cristão, isto é, com vistas de nos fortalecer no amor, não constitui em desequilíbrios, nem tão pouco, em masoquismo, mas se trata de práticas ascéticas que dão solidez, concretude a nossa espiritualidade, pois, uma espiritualidade sem ascese é “caldo de água”, não traz nutrientes para a fé vivida, portanto é manca. Por outro lado, a ascese sem espiritualidade, descamba no rigorismo, no legalismo, por isso, para uma fé madura, ambas devem andar juntas, a espitualidade dar sentido e significado a ascese e a ascese dar consistência e solidez a espiritualidade, sendo assim, se pode dizer que o Jejum e a penitência não foram práticas do Cristianismo de outrora, são práticas necessárias ao Cristianismo de hoje, que devem ser retomadas com a devida moderação, mas também com justa fundamentação. Não podemos esquecer que tais práticas, além da vida de Jesus, fizeram também parte da vida de tantos santos ao longo da história, sendo impossível afirma que da “noite para o dia” estas se tornaram ineficazes a fé. Uma coisa é amadurecer a necessária reflexão a respeito de tal assunto, outra, bem diferente e inadequada, é querer negar isso radicalmente, desconsiderando os benefícios que tais práticas proporcionaram e ainda o podem fazer a nossa fé.

POR QUE ALGUNS TÊM DIFICULDADE DE ASSIMILAR E VIVÊNCIAR TAIS PRÁTICAS? HÁ BENEFÍCIO NO SACRIFÍCIO?

Dentre outros fatores é preciso considerar o atual contexto, marcado pelo laxismo, pelo hedonismo (prazer pelo prazer) e o epicurismo (foge da dor, busca o prazer). Realidades que causam inconsciente ou conscientemente aversão a práticas que exigem sacrifícios. Claro que devemos buscar as facilidades que são adequadas e necessárias à vida, contudo ignorar que na vida não se terá que fazer sacrifícios por amor, seria uma grande ilusão, uma negação da realidade da condição humana, ou seja, procurar somente a satisfação a qualquer custo e não procurarmos o sentido das nossas cruzes na cruz de Cristo não é sadio, pois, isso poderia nos levar a hipersensibilidade, a uma espécie de “frouxidão existencial”, onde qualquer “coisinha” é motivo para nos causar “enormes sofrimentos” (vitimísmo).Em outras palavras, nos faz uma geração  que diante dos problemas da vida,ou se preferirmos das cruzes,sempre foge e por isso não amadurece e consequentemente não ama de verdade,haja vista que o amor se dar na doação e não se doa quem não está disposto ao sacrifício. Amar, portanto não é para os frouxos, mas quem está disposto a se doar, então jejum e penitência devem ser vistos como formas de treinar, de educar para o amor! Lembre-nos que quem não é capaz de doar-se nas pequenas coisas, não o será nas grandes.

Outro benefício seria a união com Deus por meio da oração, que pode nos levar a uma união mais estreita com o mistério da cruz de Cristo por meio da mística. Além disso, o jejum e a penitência pode nos levar a experimentar as nossas necessidades corporais sendo assim uma oportunidade para exercitarmos a humildade.

O Jejum e a penitência podem tonar-nos também mais conscientes do sofrimento daqueles que por diversas situações são obrigados a fazerem “jejum ou penitências forçados”, provoca-nos assim a uma luta mais intensa contra o egoísmo.

Mas, para que se concretizem os benefícios acima citados entre outros, faz-se necessário, que o jejum e a penitência não sejam feitos de qualquer jeito, antes devem ser feitos no Espírito, lembre-nos que é o Espírito que nos da vida as nossas mortificações. Então é importante lembrar que há elementos que devem simultaneamente acompanha o Jejum e a penitência, dentre estes, destacam-se:

É importante considerar que através da penitência e do jejum combatemos a concupiscência da carne e através da oração a concupiscência da vida, isto é, aquilo que nos leva a achar que podemos tudo por nós mesmos, em outras palavras, o não querer depender de Deus. Todas as vezes que nos colocamos em oração abrimos a “porta do nosso coração a graça de Deus e vivemos o que o evangelho de São João diz não capitulo 15 “sem mim nada podeis fazer”(Jo,15,5), portanto, a oração é uma forma de viver a dependência de Deus, a confiança incondicional no seu amor.

 Por isso, a oração deve ser um “derramar a nossa alma na presença do Senhor”, deve ser feita na verdade. Não precisamos, nem devemos esconder nada Dele. Não esperemos estar bem ou com problemas para orarmos, devemos fazer sempre em todas as circunstâncias, seja essa oração externalizada em palavras, ou apenas feita no íntimo, contudo que seja feita na sinceridade, com transparência, pois, esta pode ser fonte de milagres e acima de tudo meio de conversão. É a oração também que nos mantêm vigilantes reavivando o dom do discernimento dos espíritos. Contudo, devemos entender que oração não é monologo, mas diálogo e isso faz toda diferença, pois ao falar com Deus, este nos responde,sendo assim não rezamos para que sempre aconteça o que queremos, mas, para fazermos a vontade de Deus, mesmo que isso implique em muitas em renúncias. Portanto, mais do que o falar com Deus a oração nos leva a ouvi-lo. 

A “esmola” é o remédio contra a concupiscência do olhar, ou seja, o ter semnecessidade, de maneira desordenada. Toda via “esmola” aqui deve ser entendida não apenas como o ato de dar algumas moedas, mas como abertura para vivência da caridade, tanto no sentido de ajudar com a doação de alimentos, dinheiro, roupas, isto é, as chamadas obras de misericórdia corporais, como também através da realização de visitas aos doentes, abertura para o perdão nos relacionamentos, entre outras práticas que estão ligadas as chamadas obras de misericórdia espirituais.

 Dar “esmola”, faz parte da tradição da Igreja, sendo assim, seria incoerente de nossa parte como Cristãos nos fecharmos a essa prática delegando-a outros, por exemplo, somente ao estado. Ou seja, uma coisa é agir com prudência ao dar bens materiais, outra é agir com indiferença, portanto, na dúvida, se não se sabe ao certo, se alguém fará um proveito adequado do doado, mesmo assim deve-se doar. Aqui é valido lembrar que ajudamos não para agradar ou sermos vistos pelas pessoas, mas o fazemos por Jesus. Uma santa e abençoada Quaresma a todos! Abraços fraternos!

Seminarista Bruno Oliveira Pereira
Missionário da Comunidade Católica Presença

«A criação encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19)

Queridos irmãos e irmãs!

Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspectiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.

1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornarnos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.

2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente conosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

Fonte: Vatican News