A pergunta que põe Cristo à prova

Imaginemos a cena. Jesus está no Templo, cercado por uma multidão atenta. Os fariseus, mestres da Lei, acabam de ouvir que Ele fez calar os saduceus numa disputa teológica. Reúnem-se então em conselho, tramando uma nova armadilha. Escolhem um deles, perito nas Escrituras, e enviam-no à frente com uma pergunta aparentemente sincera: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”.

A pergunta não é inocente. Entre os rabinos daquele tempo, contavam-se 613 preceitos na Lei de Moisés. Debates infindáveis ocupavam as escolas sobre qual deles seria o mais importante. Ao responder, Jesus poderia facilmente ofender uma corrente ou outra, perdendo prestígio diante do povo. Os fariseus queriam uma resposta que O comprometesse. Esperavam vê-Lo tropeçar nas sutilezas da interpretação rabínica.

Mas Cristo não Se deixa enredar. Responde com clareza solar, unindo dois mandamentos que a tradição sempre distinguira: o amor a Deus e o amor ao próximo. Fixemos nosso olhar nesta cena. Vejamos o Mestre diante dos doutores da Lei, sereno e firme, pronunciando palavras que resumem toda a Revelação. Naquele instante, a sabedoria divina resplandece em face humana.

A unidade dos dois amores
Cristo responde citando o Shemá, a oração que todo judeu piedoso recitava duas vezes ao dia: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. Este é o mandamento primeiro e maior. Deus deve ocupar o centro absoluto de nossa existência. Não uma parcela do coração, mas a totalidade. Não um momento do dia, mas toda a vida.

Santo Agostinho ensina que este amor é fogo que purifica e reordena todos os nossos afetos. Quando amamos a Deus sobre todas as coisas, tudo o mais encontra seu lugar correto. As criaturas deixam de ser ídolos e tornam-se degraus para o Criador. O coração, criado para Deus, só descansa quando repousa nEle.

Mas Jesus não para aí. Acrescenta imediatamente: “O segundo é semelhante a esse: amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. São João, o discípulo amado, compreendeu bem esta unidade quando escreveu: “Se alguém disser: amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso”. O amor a Deus não existe no vazio. Ele se encarna, necessariamente, no amor concreto ao próximo.

A primeira leitura de hoje nos mostra como este amor se traduz em justiça. Deus defende o estrangeiro, a viúva, o órfão, o pobre. São Tiago dirá que a religião pura consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações. O Catecismo da Igreja nos ensina que a caridade fraterna é critério de autenticidade da fé. Não podemos separar os dois mandamentos. Eles formam uma só Lei, um só caminho.

Amar com obras, não só palavras
Irmãos amados, como vivemos hoje este duplo mandamento? Examinemos nossa consciência com honestidade. Amamos a Deus de todo o coração? Reservamos tempo diário para a oração, ou nossas jornadas transcorrem sem um pensamento sequer voltado para Ele? Participamos da Santa Missa dominical com devoção, ou apenas cumprimos uma obrigação social? A Eucaristia é o lugar onde nosso amor a Deus se alimenta e cresce.

E quanto ao próximo? Olhemos ao redor. Há em nossa família alguém necessitado de perdão, de paciência, de escuta? No trabalho, tratamos os colegas com caridade, ou permitimos que a inveja e a maledicência envenenem nossos corações? Diante do pobre que encontramos na rua, somos indiferentes, ou reconhecemos nele a face de Cristo?

São Francisco de Sales nos lembra que o amor se prova com obras pequenas e cotidianas. Um sorriso ao cônjuge cansado, paciência com o filho rebelde, ajuda ao colega sobrecarregado, atenção ao idoso solitário. Nestas coisas simples se mede a verdade do nosso amor. Não esperemos ocasiões heroicas. Deus nos pede fidelidade no ordinário da vida.

Rezai hoje: Senhor, ensinai-me a amar-Vos acima de tudo e ao próximo como a mim mesmo. Amém.


† Portal Homilias — homilia para o dia 25/10/2026